
Uma das expressões mais repetidas no discurso político moderno é “interesse público”. Ela aparece para justificar impostos, regulações, censuras, subsídios, guerras, intervenções econômicas e a expansão constante do poder estatal. Sempre que o Estado precisa impor algo contra a vontade de indivíduos concretos, recorre a essa ideia abstrata, quase sagrada, que raramente é definida com precisão. Para Murray Rothbard, um dos principais teóricos do libertarianismo, essa expressão não é apenas vaga — ela é uma falácia conceitual usada para legitimar coerção.
Rothbard parte de um princípio simples, porém devastador para o estatismo: só indivíduos existem. Não há uma entidade chamada “sociedade” com vontade própria, nem um “bem coletivo” separado das preferências individuais. Tudo o que existe são pessoas reais, com interesses distintos, muitas vezes conflitantes. A partir dessa constatação, o conceito de “interesse público” começa a ruir.
O problema fundamental: quem define o interesse público?
Rothbard questiona algo que quase nunca é debatido: quem decide o que é o interesse público? Não existe um método objetivo, científico ou moralmente neutro capaz de determinar o que seria melhor para milhões de pessoas diferentes ao mesmo tempo.
Na prática, o “interesse público” é sempre definido por:
- políticos,
- burocratas,
- juízes,
- tecnocratas,
- ou grupos de pressão com acesso ao poder.
Ou seja, não é o público que decide, mas uma minoria organizada que impõe sua visão aos demais. O rótulo “público” serve apenas para esconder o fato de que interesses específicos estão sendo privilegiados à custa de outros, por meio da coerção estatal.
Para Rothbard, sempre que o Estado age, ele o faz beneficiando alguns e prejudicando outros. Não existe ação estatal neutra. Se uma política favorece um grupo, isso ocorre porque outro grupo foi obrigado a pagar a conta — seja via impostos, inflação, perda de liberdade ou restrições legais.
Coerção não é solidariedade
Um ponto central no pensamento rothbardiano é a distinção entre ações voluntárias e ações coercitivas. No mercado, trocas só ocorrem quando ambas as partes acreditam estar se beneficiando. Isso gera cooperação pacífica. Já o Estado opera de forma oposta: ele impõe decisões sob ameaça de punição.
Quando o governo afirma agir “pelo interesse público”, o que ele realmente diz é: “você será obrigado a aceitar isso, mesmo discordando”. A coerção não desaparece só porque foi revestida de uma narrativa moral.
Rothbard argumenta que solidariedade forçada não é solidariedade, e justiça imposta não é justiça. Se uma ação fosse genuinamente benéfica para todos, não precisaria ser imposta pela força. Ela seria adotada voluntariamente.
O “interesse público” como escudo moral do poder
Em Anatomy of the State, Rothbard explica que o Estado precisa constantemente de legitimação ideológica para sobreviver. Como ele não produz riqueza, mas a extrai coercitivamente da sociedade, precisa convencer os cidadãos de que essa extração é necessária, justa e inevitável.
O “interesse público” cumpre exatamente essa função. Ele transforma decisões políticas contestáveis em atos moralmente elevados. Quem questiona passa a ser visto como egoísta, antissocial ou inimigo do bem comum.
Esse mecanismo cria um ambiente perigoso: qualquer abuso pode ser justificado, desde que seja apresentado como necessário para o coletivo. Liberdades individuais tornam-se secundárias diante de uma entidade abstrata que nunca pode ser consultada nem responsabilizada.
Comparações com o mundo real
Imagine uma situação simples fora da política. Um grupo de pessoas decide que você deve entregar parte do seu dinheiro para financiar um projeto no qual você não acredita. Se isso fosse feito por um grupo privado, seria claramente reconhecido como extorsão. Quando feito pelo Estado, recebe o nome de “política pública”.
Ou pense em uma associação voluntária. Se ela começa a agir contra os interesses de seus membros, as pessoas saem. No Estado, não há saída real. Você não pode optar por não financiar aquilo que discorda. Esse é o ponto central de Rothbard: o monopólio da coerção permite que o mito do interesse público sobreviva.
Em uma sociedade mais descentralizada, com menos poder concentrado, decisões seriam tomadas localmente, contratos seriam voluntários e erros seriam limitados. Já em um Estado centralizado, uma única decisão errada afeta milhões.
A falácia coletiva
Rothbard também critica a ideia de que o “interesse público” poderia ser a soma dos interesses individuais. Mesmo isso não se sustenta. Interesses entram em conflito o tempo todo. Aumentar impostos pode beneficiar quem recebe subsídios, mas prejudica quem produz. Regular um setor pode proteger grandes empresas, mas destruir pequenos empreendedores.
Chamar isso de “interesse público” não resolve o conflito — apenas o mascara. O termo funciona como uma cortina de fumaça para evitar o debate honesto sobre quem ganha e quem perde.
Estado mínimo e o enfraquecimento da falácia
Dentro da lógica libertária, um Estado mínimo reduz drasticamente o espaço para esse tipo de manipulação. Com funções limitadas à proteção de direitos individuais, o Estado perde a capacidade de intervir amplamente na economia, na moral e na vida privada.
Quanto menor o Estado, menor a necessidade de justificar ações com conceitos vagos como “bem comum”. A vida social passa a ser organizada por cooperação voluntária, contratos livres e responsabilidade individual.
Rothbard defende que a verdadeira ordem social emerge da liberdade, não da imposição centralizada. Onde não há coerção, o mito do interesse público perde utilidade.
Conclusão
Para Murray Rothbard, o “interesse público” não é um princípio moral legítimo, mas uma falácia política criada para justificar o uso da força contra indivíduos pacíficos. Ele não descreve uma realidade objetiva, mas serve como instrumento retórico para expandir o poder do Estado.
Ao desmontar esse conceito, Rothbard expõe algo fundamental: toda política estatal envolve coerção, conflito e transferência forçada de recursos. Reconhecer isso é o primeiro passo para uma sociedade mais livre, honesta e responsável.
Enquanto o “interesse público” for tratado como dogma incontestável, abusos continuarão sendo cometidos em seu nome. Questioná-lo não é egoísmo — é um ato de defesa da liberdade individual.

